Eixo Mobilidade e Transporte Público

As ruas, desde as cidades da Antiguidade, acompanharam evoluções e revoluções de cidades e de nações. Pelas ruas já passou de gente e de carroça. Agora, quase só passam de carro. Carros que transportam, na sua esmagadora maioria, apenas seu próprio condutor. Nem para carona se prestam. Enquanto isso, apenas uma, das quatro pistas em uma grande avenida, são exclusivas para ônibus. E olhe lá, geralmente nem isso. As ciclovias, por sua vez, invadem as calçadas, chocam-se com pedestres, cruzam paradas de ônibus. Toda essa estrutura de locomoção reforça a ambiência de tensão e conflito que se tornou não só o trânsito, mas o cotidiano em uma cidade como Porto Alegre. Nos atrevemos, portanto, e com muita simplicidade, a levantar aquilo que consideramos elementos de difícil transposição para seguir adiante a vida nessa “mui leal e valorosa cidade”. Mas, ainda que difíceis, é preciso que se aceite o desafio de transpô-los.

O primeiro, e que engloba todos os outros, é o desafio de pensar uma cidade “mais humana”, rompendo com o hábito vigente de “amontoar” a população em moradias altamente verticalizadas e adensadas, o que acarreta, por consequência, na cimentação do solo urbano e na sua poluição visual, sonora, hídrica… Poluem-se até as ideias. Além da necessidade de moradias dignas, saneamento básico (como água encanada e esgoto), estrutura pública para atendimento à saúde, um dos mais sérios e antigos problemas de Porto Alegre é o direito à locomoção, de maneira geral. A estrutura das linhas de ônibus é concentrada em uma pequena porção do município e com diversas linhas fazendo trajetos similares, sem atender vias coletoras. Neste sentido, para além das antigas iniciativas das linhas transversais (T) e da construção de alguns corredores de ônibus, quase nada foi realizado. As ciclovias e ciclofaixas são de pequena extensão e sobrepostas à estrutura viária existente, sem planejamento integrado, atual ou futuro. O uso da bicicleta, como meio de transporte alternativo, social e ambientalmente correto, não é bem visto nem pelo poder público, nem pelos defensores do “carrocentrismo”. O Plano Ciclo viário, que remonta cinco anos de existência, prevendo mais de 500 km entre ciclofaixas e ciclovias, parou em 30 km, cuja situação foi corroborada pelo poder municipal, ao se retirar a obrigatoriedade de porcentagem oriunda do recolhimento de infrações dos automóveis. Poucos semáforos possuem sinalização sonora e, muitas vezes, a sinalização visual é falha. As calçadas são estreitas e não comportam a passagem do volume de pedestres, além de possuírem escassa manutenção. Os carros predominam na lógica desenvolvimentista das cidades, ocupando muita área e transportando pouca gente, e, ainda, de custo extremamente elevado, portanto, seletivo de maneira elitista. Por outro lado, faltam alternativas de transporte de massa que conjuguem qualidade e tarifa acessível. Verifica-se através deste complexo cenário, portanto, sérios problemas de mobilidade independente do meio de transporte!

Por fim, este eixo da Conferência deve servir para pensarmos o panorama atual de Porto Alegre e, partir dele, decidirmos sobre campanhas necessárias para uma outra mobilidade urbana, que atenda a totalidade dos cidadãos.

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