A contaminação do meio ambiente e a mortandade das abelhas no RS. Entrevista especial com José Renato de Oliveira Barcelos

Fonte: IHU Unisinos

“Há uma disputa de narrativas, há várias opiniões no sentido contrário, ou seja, o problema está colocado e precisa ser resolvido de alguma maneira”, resume José Renato de Oliveira Barcelos, especialista em direito ambiental, ao comentar os discursos de apicultores e agricultores que divergem sobre as implicações do uso de agrotóxico nas lavouras gaúchas. “A questão é que os sojicultores e os agricultores que se dedicam à lavoura onde o consumo de agrotóxico é mais elevado pensam que o uso do agrotóxico é necessário para viabilizar a produção e, portanto, é um produto indispensável para a produção agrícola. Mas os apicultores sustentam que as abelhas estão morrendo e afirmam que o veneno é um dos grandes responsáveis por isso”, explica. Apesar da disputa, frisa, no estado do Rio Grande do Sul, onde foram registrados novos casos de mortandade de abelhas em janeiro deste ano, “as colmeias mais atingidas são aquelas próximas às lavouras de soja”.

De acordo com Barcelos, nos últimos anos os pesquisadores têm reunido mais evidências de que as abelhas estão sendo contaminadas pelos agrotóxicos e que a mortandade registrada nos últimos anos está relacionada ao desequilíbrio e à contaminação do meio ambiente. “Uma pesquisa produzida pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido  Ufersa, lançada no dia 7 de janeiro deste ano, trata do desaparecimento e morte das abelhas no Brasil. Esse estudo aponta, de uma forma segura do ponto de vista científico, que a mortandade das abelhas está sendo causada pelos agrotóxicos, e que o fipronil é a substância que tem sido a causa dessa mortandade”, informa.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-LineBarcelos ressalta também que o Brasil vive um “impasse no sentido de tentar frear o uso de agrotóxicos nas commodities que usam esses produtos” e que o “tema é muito mais amplo e profundo do que essa alarmante mortandade registrada recentemente”. A mortandade registrada no estado, diz, “é a consequência, mas nós temos de nos preocupar com a causa, que tem que ser analisada e contornada”. A solução desse problema, pondera, “está muito além de uma simples crítica a um modelo de agricultura que se pratica. (…) No pacote de sustentação da matriz industrial que dá viabilidade a esse modelo há uma relação de dependência dos agrotóxicos: não há como ter convivência entre um biocida, produto que foi criado para eliminar a vida, e a preservação da vida”.

José Renato de Oliveira Barcelos é bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, mestre em Direito Público pela Universidade do Vale do Rios dos Sinos – UNISINOS, especialista em Direito Ambiental Nacional e Internacional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É membro fundador da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD-Núcleo/RS, da Associação Brasileira de Agroecologia – ABA, do Conselho Superior da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – AGAPAN e do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos – FGCIA.

Confira a entrevista.

Morte das abelhas no RS é registrada pelos apicultores
Foto: Arquivo Pessoal

IHU On-Line – Nos últimos anos, pesquisadores têm alertado para o desaparecimento das abelhas no RS. No entanto, neste ano, noticiou-se a mortandade desses animais em algumas regiões do estado, como em Alegrete, na fronteira oeste, e em São José das Missões, na região norte. O que explica esses dois fenômenos? Há uma correlação entre eles?

José Renato de Oliveira Barcelos – Acredito que essa correlação existe e está cada vez mais evidente. Há muitos anos nos EUA começou um fenômeno chamado “colapso das colmeias”: as colmeias desapareciam e ninguém sabia explicar por que isso acontecia. Embora várias teses tenham surgido para explicar o fenômeno, não se especificou ainda claramente o que ocasionava esse colapso e com qual periodicidade ele acontecia.

No Brasil ainda não se verificou esse fenômeno de colapso das colmeias, mas se verifica uma mortandade de abelhasacima do normal. A morte de abelhas pode ocorrer por vários fatores: por causa de parasitas, de doenças, de fatores ambientais e, inclusive, por conta da contaminação por agrotóxicos.

O que está acontecendo no Brasil e no mundo é algo que aponta na direção de uma mortandade extraordinária e fora de qualquer tipo de parâmetro natural. Ou seja, há um fator que explica esse fenômeno e nós sustentamos que é o uso dos agrotóxicos que está causando essa mortandade. Não se pode deixar de considerar que há uma correlação entre esses fenômenos no estado inteiro.

IHU On-Line – Notícias da imprensa informam que colmeias em áreas próximas ao plantio de soja estão desaparecendo. O senhor tem informações sobre se é mais frequente o desaparecimento ou a mortandade de abelhas em regiões onde há lavouras de monocultivos?

José Renato de Oliveira Barcelos – O que chegou ao nosso conhecimento é que as colmeias mais atingidas são aquelas próximas às lavouras de soja. No entanto acreditamos que pela difusão dos agrotóxicos e pelo modelo de agricultura que se pratica hoje, aliado ao agronegócio, onde há agrotóxico há mortandade.

IHU On-Line – Em quais regiões do estado havia mais presença de abelhas anos atrás e hoje se constata uma diminuição da presença desses animais?

José Renato de Oliveira Barcelos – Há um relatório da Câmara Setorial do RS que identificou as cinco regiões mais afetadas do estado. É interessante acompanhar essas ocorrências com o perfil geográfico da plantação de soja, o que é mais uma evidência de que esses fatores estão ligados.

Nos últimos meses, nove municípios registraram aumento da mortandade de abelhas, entre eles, AlegreteBagéCaçapava do SulFrederico Westphalen, Santana do LivramentoSantiagoSão José das Missões e Ijuí. Somente no município de Santiago foram perdidas 200 colmeias e alguns apicultores falam na perda de mil colmeias, com um prejuízo de quase um milhão de reais.

Vídeo gravado por produtor de São José das Missões mostra a morte das abelhas: 

IHU On-Line – Como tem se dado a discussão entre aqueles que defendem o uso de agrotóxicos e aqueles que denunciam que a mortandade das abelhas no estado tem ocorrido por conta do uso dessas substâncias?

José Renato de Oliveira Barcelos – O problema é tão grave que ainda não há um consenso na sociedade sobre essa questão que, na nossa avaliação, pode ser um prenúncio de uma catástrofe ambiental. A questão é que os sojicultores e os agricultores que se dedicam à lavoura onde o consumo de agrotóxico é mais elevado pensam que o uso do agrotóxico é necessário para viabilizar a produção e, portanto, é um produto indispensável para a produção agrícola. Mas os apicultores sustentam que as abelhas estão morrendo e afirmam que o veneno é um dos grandes responsáveis por isso. Há uma disputa de narrativas, há várias opiniões no sentido contrário, ou seja, o problema está colocado e precisa ser resolvido de alguma maneira.

Do ponto de vista científico, há um consenso de que as abelhas são indicadores de qualidade ambiental e esse é um ponto importantíssimo. A mortandade das abelhas é um problema complexo e está diretamente relacionada ao desequilíbrio e à contaminação do meio ambiente. Portanto, a discussão tem que partir de um pressuposto importante de que a abelha é um inseto essencial do ponto de vista da polinização e dos serviços ambientais que ela presta, como o de regulador da biodiversidade. Além disso, há que se considerar que as abelhas são fundamentais na produção da cadeia do mel, que é um produto importante para a economia do RS. Mas há indicativos de que o meljá está contaminado.

O tema é muito mais amplo e profundo do que essa alarmante mortandade registrada recentemente. A mortandade é a consequência, mas nós temos de nos preocupar com a causa, que tem que ser analisada e contornada. A solução desse problema está muito além de uma simples crítica a um modelo de agricultura que se pratica. Nós entendemos que esse modelo de agricultura que usa o agronegócio está destruindo o planeta. No pacote de sustentação da matriz industrial que dá viabilidade a esse modelo há uma relação de dependência dos agrotóxicos: não há como ter convivência entre um biocida, produto que foi criado para eliminar a vida, e a preservação da vida.

Praticamente todos aqueles que são favoráveis aos agrotóxicos dizem que o problema não é o produto em si, mas sim a sua aplicação, a falta de cuidado ao colocar o produto, praticamente transferindo a responsabilidade quase que unicamente para o agricultor. Mas sabemos que não é esse o problema; o problema é exatamente que esses sistemas são incompatíveis, e não há compatibilidade possível entre insetos de controle biológico e inseticidas. Então, precisamos nos dar conta de que o que está em discussão é o modelo de agricultura que se pratica.

Por isso acreditamos que a agroecologia é não somente a alternativa para esse problema, como asalvação do planeta do ponto de vista ambiental. A agroecologia propõe um sistema diferente do da economia em grande escala, um modelo no qual é possível questionar o modo de produção de alimentos em larga escala e discutir a questão de fundo, que é a salvação do planeta.

IHU On-Line – No modelo agroecológico é possível dispensar o uso de agrotóxicos, ou seria preciso usar algum tipo de controle biológico?

José Renato de Oliveira Barcelos – Não sou a pessoa mais adequada para falar sobre o tema, porque não sou especialista na área. Mas o conhecimento que tenho me permite dizer algumas coisas. Primeiro, temos que compreender que estamos numa fase de transição e que o uso desses produtos está inviabilizando o nosso planeta. Uma pesquisa produzida pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido  Ufersa, lançada no dia 7 de janeiro deste ano, trata do desaparecimento e morte de abelhas no Brasil. Esse estudo aponta, de uma forma segura do ponto de vista científico, que a mortandade das abelhas está sendo causada pelos agrotóxicos, e que o fipronil é a substância que tem sido a causa dessa mortandade. Com isso quero dizer que existem elementos científicos e pesquisas apontando que o veneno é um dos elementos centrais na problemática da mortandade das abelhase é para ele que temos que nos voltar.

A tendência, com as mudanças legislativas aprovadas recentemente, inclusive com o pacote do veneno que vai entrar em vigor, tende a agravar ainda mais essa situação, porque fragilizará o Ibama, que é um órgão federal importante na fiscalização, no controle e na avaliação de riscos dos agrotóxicos. Esse trabalho que é feito pelo Ibama possivelmente será realizado pelo Ministério da Agricultura, que não está preparado para fazer esse tipo de análise. Assim, vai aumentar o problema da contaminação, e aumentando a contaminação, aumenta-se também a mortandade das abelhas.

Precisamos, então, de um período de transição para uma nova realidade na qual os processos ecológicos essenciais sejam respeitados, que é o que a Constituição assegura. A responsabilidade disso é do Estado e da sociedade, mas para isso precisamos avançar, dar um passo à frente na concepção de que a responsabilidade pela configuração do planeta é nossa. Temos que parar de tratar a natureza como um objeto e passar a concebê-la como algo que gera ativos. Isso também passa pela discussão sobre a importância das sementes como unidades geradoras de vida, de comunidades biológicas. É evidente que precisamos de alternativas econômicas para suportar o desenvolvimento, mas é perfeitamente possível produzir alimentos sem utilizar agrotóxicos, e isso já está comprovado. Um exemplo é o Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, que é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina.

É evidente que ao afirmar que é possível produzir sem nenhuma gota de veneno, estou indo de encontro a uma série de interesses que questionam esse tipo de modelo. Há pouco tempo houve uma suspensão do uso do glifosato através de uma liminar da Vara Federal de Brasília, que causou um problema no país inteiro. Os produtores de soja se organizaram, a liminar foi derrubada e o uso do glifosato passou a ser autorizado para comercialização. Mas diante da denúncia de contaminação, de problemas de câncer e endócrinos e do problema com as abelhas, é preciso adotar o princípio da precaução como um fator importante para examinar, a partir dele, as relações desse tipo de produto com a natureza. A sociedade e as organizações ambientalistas estão se organizando e os pesquisadores também estão comprometidos com isso, porque queremos chegar à raiz do problema.

Em 2016 o MST registrou a mortandade de abelhas no RS, na região da Campanha. À época o produtor João Camargo registrou a perda de todas as colmeias em três horas (Foto: MST)

IHU On-Line – Juridicamente, que disputas têm ocorrido no Brasil por causa do uso de agrotóxicos?

José Renato de Oliveira Barcelos – A lei federal de agrotóxicos nasceu no RS, no movimento ambientalista gaúcho dos anos 1970, junto com o Lutzenberger. Houve uma discussão importante à época, que construiu uma regulação para conter os impactos da ação dos agrotóxicos. Hoje temos vários fóruns nacionais contra o uso de agrotóxicos e uma campanha permanente para conscientizar a sociedade sobre o uso de agrotóxicos, porque desde 2008 o Brasil é o país que mais consome esses produtos no mundo: são consumidos mais de nove litros de veneno por habitante/ano. Alguns pesquisadores sustentam que se trata quase de uma nova onda colonial, porque esses produtos são produzidos por empresas europeias e americanas e aplicados no terceiro mundo, enquanto nos países de origem esses produtos são proibidos.

Vivemos um impasse no país hoje no sentido de tentar frear o uso de agrotóxicos nas commodities que usam esses produtos. Mas o uso de agrotóxico está ligado ao uso de sementes transgênicas que, por sua vez, está ligado ao modelo de agricultura que mencionei antes, que é um modelo excludente e que termina com a biodiversidade, mas que é colocado hoje como o modelo hegemônico, embora não seja sustentável. Diante desse problema, o pacote do veneno está sendo objeto de alteração no Congresso Nacional, que propõe desregulações e flexibilização da lei ambiental e federal dos agrotóxicos. Entre as propostas de mudanças, destaca-se a de substituir o termo agrotóxico por pesticida.

Os grandes conglomerados que produzem e comercializam agrotóxicos estão enfrentando bastante resistência em relação aos seus produtos, e faz parte da estratégia política deles flexibilizar as legislações na América Latina, na África, na Índia, para que se introduzam nesses países produtos que são banidos nos países de origem.

Ocorreu recentemente um encontro em Goiás, no qual especialistas discutiram os problemas ambientais na bacia hidrográfica do Rio da Prata, na Argentina, que está recebendo toda a poluição da agroquímica que vem do Norte do Brasil, do Peru e da Venezuela.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

José Renato de Oliveira Barcelos – Há uns dois anos um grupo de pesquisadores independentes do qual eu faço parte começou a discutir o problema da contaminação. E, como todos nós somos ligados a movimentos sociais e a movimentos da sociedade civil, criamos uma articulação chamada “Articulação para a Preservação da Integridade dos Seres e da Biodiversidade”, que se propõe a abordar o problema da contaminação nesse viés que mencionei anteriormente, para chegar à raiz do problema e enfrentar aquelas questões mais espinhosas, sobretudo para dar ao apicultor informações mais seguras e apresentar alternativas para o enfrentamento desse problema.

No mês de março vamos lançar essa articulação para poder pensar de uma forma crítica e estratégica. Uma das medidas que estamos preparando é uma integração judicial, ou seja, queremos judicializar esse problema e chamar o Ministério Público para que ele também ajude nessas questões ambientais.

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Heavy Hour – hortas urbanas, agroecologia e impactos dos agrotóxicos sobre a alimentação e saúde

Clique abaixo para ouvir o programa Heavy Hour – Coletivo Catarse.

Qual a relação entre alimentação e saúde no país campeão mundial de consumo de agrotóxicos? As decisões governamentais que atingem a agroecologia no campo e na CIDADE! No Heavy Hour desta semana a gente conversa com João Francisco Moraes Cardoso, o vereador Tigre, assentado e produtor rural agroecologista, feirante da mais tradicional Feira Ecológica de Porto Alegre. Também no Estúdio da Lua, a Monica Meira, doutora em antropologia, pesquisadora, integrante do Coletivo A Cidade que Queremos, ativista de Hortas Comunitárias.

Pelo áudio de zapzap (não é fakenews!!), Dr Ricardo Ghelman, coordenador da Unidade de Pediatria Integrativa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, fala sobre os malefícios do agrotóxicos e a relação entre alimentação e saúde. E o Livreiro Bolívar (51-98905.0672) com sua dica na Bibliografia Social, o livro “A vantagem acadêmica de Cuba”!

José Renato Barcelos – La lucha contra Monsanto muestra que se puede

Fonte: Rel-UITA 

Con José Renato Barcelos
La lucha contra Monsanto muestra que se puede“Las transnacionales no son invencibles”

Nuevamente la oficina de Jair Krischke es punto de encuentro. Allí conocí a José Renato, Abogado por la Pontificia Universidad de Porto Alegre, doctorado en derecho ambiental y asesor de la Fetag de Rio Grande del Sur. Con él conversamos sobre los desafíos que enfrentan los defensores de los bienes comunes en Brasil y en toda América Latina.

 

-¿Cómo surge tu interés y sensibilidad por la defensa del medio ambiente?
-Hace bastante tiempo que estoy vinculado a los movimientos de defensa ambiental, con las cuestiones agrarias y el tema de la tierra.

Todo surge porque noto una agresión creciente y cotidiana contra el ambiente.

Estoy vinculado hace mucho a los trabajadores rurales, he sido asesor de la Federación de Trabajadores de la Agricultura (Fetag) y también de algunos sindicatos y a través de ellos, sobre todo de los pequeños agricultores, pude observar el drama que la falta de respeto al medio ambiente genera a sus familias.

Hay personas que mueren por los agrotóxicos; o que enferman y se van deteriorando lentamente con dolencias que afectan el sistema nervioso central.

Cada vez se ven más y más casos de este tipo.

Estas cosas son las que motivan el accionar legal contra las grandes corporaciones que forman parte de esta red de intereses a la que poco le importan los trabajadores, sus familias y el ambiente.

Las semillas, su valor y su apropiación

-¿Qué pasa con la patente de las semillas y la concentración de las mismas en unas pocas compañías transnacionales?

-El tema de las semillas es puntualmente sensible para todos los que defendemos una agricultura sustentable.

Para nosotros la semilla está rodeada de un halo de sacralidad, mientras que el modelo hegemónico (el del agronegocio) la ve como mercadería, como una commodity.

Este es el trasfondo de una serie de problemas, incluso desde el punto de vista simbólico, porque le quita el derecho a la tierra de generar vida nueva, destruye pensamientos y construcciones culturales que se remontan a las comunidades originarias, a los primeros agricultores, a milenios de historia de la agricultura que ha permitido la supervivencia de la especie humana.

Recordemos que esta agricultura moderna inauguró una matriz químico- dependiente, a partir del período de post guerra, que se apropió de las semillas para controlar el sector agrícola y por consiguiente toda la cadena de alimentos desde lo económico.

Eso nos demuestra lo gigantesco de nuestro desafío para poder preservar las semillas criollas, un material genético criollo capaz de soportar las variaciones del clima. En esto está involucrado el tema de la soberanía y la seguridad alimentaria también.

La maquinaria del agronegocio

-No es sencillo romper el paradigma semilla / agrotóxicos / agricultura en manos de 5 o 6 transnacionales y de su ejército de “científicos” fundamentalistas que pregonan contra la ecología, la agricultura orgánica o familiar…
-Para nada. Se trata de un engranaje cuyo motor principal es el dinero y el poder. Una investigadora muy prestigiosa de la Universidad de Harvard, la doctora Sheila Jasarnoff, dice que el control de las semillas es la nueva forma de imperialismo.

Ella compara, muy acertadamente, los procesos de los antiguos imperios romano y otomano con el de las corporaciones transnacionales, que no solo detentan la propiedad de las semillas, sino que producen el veneno, promueven y viven de la agricultura industrial que no genera trabajo, que contamina, etcétera.

Con este modelo de producción la humanidad ha ido perdiendo la diversidad de sus alimentos. Si vas al supermercado verás que nuestra alimentación está basada en tres o cuatro cultivos: el trigo, la soja, el arroz y el maíz y por ahí nos quedamos.

Hay una disminución de la base genética y esto también trae problemas a los agricultores porque ya no hay una gran variedad de cultivos y la calidad es menor.

El paquete del veneno

-¿Qué pasará en Brasil, que ya era el mayor consumidor de agrotóxicos del mundo, al aprobarse el proyecto de ley que busca ampliar el uso de venenos, algunos de los cuales han sido prohibidos en otros países?

-Es una demencia, porque ya tenemos una ley que regula el uso de agrotóxicos en toda la cadena del proceso, que es muy buena pero que no ha logrado sortear el poder económico que está involucrado.

Tanto es así que estas grandes corporaciones invierten en promover cambios en las legislaciones de los países donde operan, pero no producen en sus países de origen, porque allí ya se han dado cuenta del daño que generan y por lo tanto los prohíben.

En Estados Unidos y en Europa (regiones de origen de las corporaciones productoras de agrotóxicos) se está dando una lucha persistente y sistemática contra estos productos.

Francia ya implementó un marco temporal (hasta 2020) para el uso de agrotóxicos y de su corolario, los eventos transgénicos.

Acá en Brasil, pero también en América Latina, vamos en franco retroceso en este sentido. El proyecto de ley, conocido como “el paquete del veneno”, permite el uso de glifosato y otros agrotóxicos que la OMS ha declarado cancerígenos.

Este proyecto, entre otras cosas, propone cambiar el uso de la palabra agroquímico por productos fitosanitarios, un eufemismo que apunta a mostrar a estos venenos como si fueran remedios.

La bancada ruralista quiere acabar con las connotaciones negativas de la palabra agrotóxico. Es un grupo poderoso con infinitos recursos financieros, es un movimiento mundial que intenta comercializar los agrotóxicos de manera cada vez más intensa.

En esa lucha estamos, y no es nada sencilla.

Una investigación realizada en el norte de Brasil, en el municipio de Lucas do Rio Verde, Goiás, encontró vestigios de glifosato en 62 madres que estaban amamantando.

Es decir que la propia madre al amamantar está administrando veneno a su bebé.

Estas corporaciones no tienen ningún tipo de responsabilidad social. Las enfermedades resultantes de la exposición a agrotóxicos como el glifosato deberán ser tratadas por el sistema de salud público y seremos todos los brasileños y brasileñas quienes deberemos asumirlo.

El uso indiscriminado de agrotóxicos implica un costo social elevadísimo que no podemos admitir como sociedad.

El ambiente, un tema olvidado

-La composición actual del Congreso brasileño, extremadamente conservador y corrupto, con una bancada ruralista fuerte que impone su visión, no hacen el escenario fácil para los ambientalistas. Pero tampoco la izquierda se ha pronunciado a favor del cuidado del ambiente o de la soberanía alimentaria…

-La izquierda brasileña nunca se apropió de las cuestiones ambientales o ecológicas. De hecho la sociedad entera no lo hizo, al menos no de forma comprometida.

Los partidos de izquierda o de centro no enarbolan la bandera de la causa ecológica como política de Estado, mucho menos los de derecha. Eso no sucede en otros países, como los del norte de Europa.

Es necesario que el Estado se movilice y determine, junto con los movimientos sociales afines, políticas internas que se rijan por principios ecológicos.

Irónicamente el mejor ministro de Agricultura que tuvo Brasil, que generó una serie de políticas públicas orientadas a la defensa del ambiente y de la soberanía alimentaria fue José Sarney Hijo, un político de derecha.

Internacionalizar la lucha

-La articulación entre organizaciones de la sociedad civil es fundamental para enfrentar la mafia del agronegocio…

-Sin lugar a dudas tenemos que tejer alianzas con todos los movimientos sociales.

No hay forma de enfrentar este modelo sin ampliar el arco de alianzas con movimientos como el feminista, el de los quilombolas, los negros, los consumidores.

Miremos lo que sucedió con Monsanto, una transnacional que a través de los transgénicos y los agrotóxicos ha contaminado al mundo.

Ahora, luego de varios años de resistencia de los movimientos ambientalistas y sociales que denunciaron su accionar, se ha visto afectada económicamente.

Tuvo una caída sustancial de sus ingresos, lo que hizo que la alemana Bayer la adquiriera, no solo para sacarla del medio sino para apropiarse de sus patentes.

Lo que tal vez no calculó Bayer es que no le será fácil sacarse la mala publicidad que durante años los consumidores y los luchadores sociales le hicimos a Monsanto.

Este caso es una prueba de que como sociedad organizada tenemos nuestro poder. Y con el avance de las comunicaciones podemos internacionalizar con mayor facilidad nuestros combates.

Descubrir las fisuras de estas grandes corporaciones es el desafío, porque son extremadamente poderosas pero no invencibles.

Entrevista com Betânia Alfonsin no programa Atitude TCE Entrevista

Entrevista com a advogada Betânia Alfonsin resgata o histórico da luta pela reforma urbana no Brasil e destaca o protagonismo do país.  Direito à cidade é uma luta que tem história, se consolidou na legislação brasileira e precisa ser disputada e ampliada diariamente!

A entrevista foi apresentada no programa Atitude TCE Entrevista no dia 03 de março de 2018, sábado. O vídeo foi publicado na página do facebook do TCE RS.

Qual é a solução para o sucateamento das periferias?

Fonte: https://medium.com/@carolinemusskopf/qual-%C3%A9-a-solu%C3%A7%C3%A3o-para-o-sucateamento-das-periferias-a3a512252d24

O coletivo A Cidade que Queremos responde e traz novos apontamentos para a discussão nesta entrevista ping-pong.

Durante nossa apuração para falarmos sobre o trajeto da Restinga ao Centro, conversamos com um morador do bairro Bom Jesus e integrante do coletivo A Cidade que Queremos. Ele abordou possíveis alternativas para que a organização desigual das cidades desenvolva novas características através da participação popular, mas garantiu que o caminho é longo. O coletivo é formado por diversas associações e movimentos sociais de Porto Alegre.

Foto: Cristiane Moreira.

De quais formas o coletivo enxerga a construção de uma cidade melhor?

Hoje, parte do que chamamos de organização do trabalhador é aquela que se dá no local de moradia de cada um: a luta comunitária. O principal empecilho para ela é que os movimentos sociais costumam reivindicar apenas caminhos imediatos. Resolver o problema do esgoto entupido, da falta de iluminação em uma rua. Tudo isso é importante, mas não podemos esquecer de discutir o que causa a exclusão das periferias. O dia a dia e as demandas da realidade são necessários e a gente precisa sim envolver as comunidades nisso, mas também é necessario fazer uma lincagem com as consequências do modelo de cidade que temos. Do contrario, não renovamos a militância.

Quais são essas consequências que tu citou? Como isso pode ser observado no cotidiano das periferias?

As cidades são organizadas apenas para responder suas questões econômicas. Onde é possível ter um retorno econômico maior, é onde os investimentos em infraestrutura vão ser feitos. Nas periferias, é a desassistência. O posto de saúde que fica funcionando semanas e semanas sem médico, as escolas que ficam sem professores o semestre inteiro porque não tem ninguém pra repor. Isso acontece porque muito dessas desigualdades das cidades estão ligadas a um tipo de gestão da máquina pública. O que poderia e deveria acontecer é a população mais desassistida ser prioridade e nós temos uma inversão disso. O sucateamento da Fasc é um exemplo disso.

Qual é o nível de aderência da população aos debates realizados pelo coletivo A Cidade que Queremos, abertos ao público? Eles são efetivos?

Nós vivemos um esvaziamento da ação comunitária popular. As pessoas estão frustradas com a política e acham que nada vai resolver a situação. Durante esse processo, é muito difícil de fazer as pessoas se engajarem nesse tipo de movimento. Isso precisa ser revertido, porque associado a nossa conjuntura geral do país, no qual nada nos representa, o espaço de mobilização se torna mais necessário, sem soluções superficiais.

Dentro deste contexto atual, como vocês estão atuando?

Estamos diversificando nossas abordagens, saindo um pouco das assembleias e dos debates acadêmicos e indo para as feiras orgânicas, feiras de economia solidária, conversando com as pessoas e ampliando o diálogo. A população que a gente consegue alcançar está aceitando desenvolver o pensamento crítico e se juntar para pensar em soluções.

E quanto ao transporte público e o acesso da população periférica aos centro das cidades? Como vocês buscam atuar nessa demanda mais específica?

O transporte público vai ser mais acessível na medida em que for mais descentralizado. Por que fazer um itinerário que faz um caminho por dentro de várias vilas? Para que as pessoas não precisem ir até o centro e pegar dois ônibus para um local que poderia ter um trajeto com a metade do tempo. Se tivéssemos roteiros alternativos e um número de linhas maior de ônibus circulares, para alimentar uma comunidade à outra, a acessibilidade aumentaria.

Qual é a perspectiva de melhoria para os próximos meses?

O movimento atual da gestão da Prefeitura está sendo o de reduzir os trajetos dos ônibus, substituindo algumas linhas por ônibus alimentadores, que só passam em ruas principais e terminais. Estamos em um processo de inibir o uso do transporte público, dando vários passos para trás. As viagens que 20 minutos vão passar a ter uma hora. Antigamente, nós tínhamos comunidades aqui perto que, para pegar um ônibus, as pessoas tinham que caminhar um quilômetro e meio de barro. A pavimentaçao das ruas também é uma reivindicação ainda bastante importante. Muita coisa melhorou, mas parece que estamos regredindo.

 

OS DESAFIOS DO MOVIMENTO AMBIENTALISTA GAÚCHO

Fonte: Jornalismo Ambiental

Manifestantes protestam em frente à Secretaria do Meio Ambiente contra a extinção da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul – Crédito: Divulgação Agapan
Diante dos graves problemas ambientais que marcam o século XXI, quais devem ser as bandeiras de luta das organizações não governamentais que atuam na área? O trabalho das ONGs pode ser financiado com dinheiro de poluidores? Os ambientalistas devem continuar participando de conselhos públicos? Como criar novas lideranças? Para tentar responder estas questões, a reportagem do blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter entrevistou dirigentes da Agapan, do Movimento Roessler, do Instituto Augusto Carneiro, do Núcleo Amigos da Terra Brasil e do Instituto Ingá. Para melhor compreender o movimento ecologista gaúcho, também consultou a historiadora ambiental Elenita Malta.

Por Alberi Neto, Aline Eberhardt e Ariadne Kramer
Jornalismo Ambiental – Campus Fapa / Manhã

A pressão dos grupos ambientalistas ajudou a criar políticas públicas a fim de proteger o meio ambiente. Antes feito de forma tímida, hoje de maneira mais acentuada, essas conquistas políticas são fruto de uma tomada de posição mais militante dos movimentos ecológicos. Nos anos 1970, por exemplo, não existiam órgãos responsáveis pela fiscalização e cuidado do meio ambiente. Com o avanço e a popularização do movimento, eles foram sendo criados.

A participação do movimento ambientalista nas esferas governamentais que começaram a surgir timidamente nos anos 1980 é um assunto que divide opiniões. Enquanto alguns acham que a política “contamina”, outros acreditam que ela dá voz e não pode ser ignorada. “Devemos fazer ouvir nossa voz em todos os espaços a que possamos ter acesso”, defende Leonardo Melgarejo, ex-presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

Para o sociólogo Agripa Alexandre, a participação dos ambientalistas nesse lado mais político tirou muito da radicalidade e o caráter combativo do movimento. Doutor especializado em meio ambiente pela Universidade Federal de Santa Catarina, Agripa defende no artigo “A perda da radicalidade do Movimento Ambientalista Brasileiro: uma nova contribuição à crítica do movimento” que a absorção do discurso ecológico pela mídia, empresários e governos foi, na verdade, um retrocesso.

Por vezes, as comunidades pensam que o Estado irá solucionar seus problemas ambientais através de algum órgão, pelo simples fato de ser o Estado, constata o coordenador do Núcleo Amigos da Terra Brasil, Fernando Campos. Ele acredita que isso pode deixar, sim, as pessoas mais acomodadas. “Se você tem uma luta e abre um processo no Ministério Público ou um deputado se compromete a resolver essa luta, as pessoas se acomodam e acham que a questão está resolvida.”.

Quando parte das reivindicações foi atendida pelos conselhos de meio ambiente, municipais, estaduais e federal, todos passaram a se declarar ambientalistas, inclusive as empresas poluidoras. “O chamado marketing verde, só para divulgar a imagem de ambientalmente responsáveis”, explica a historiadora ambiental Elenita Malta. Essa é, segundo a pesquisadora, uma das partes mais complicadas, saber diferenciar o correto do ‘politicamente correto’.

Ainda que as ONGs tenham espaço nesse meio, são espaços extremamente pequenos se comparados à totalidade. “O Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema/RS) é dominado pelo estado”, exemplifica Arno Kayser, presidente do Movimento Roessler para Defesa Ambiental. “Se o estado se ligar com um segmento social, ele já tem maioria absoluta e ganha as votações. É diferente dentro dos comitês de bacia hidrográfica, onde a sociedade está equilibrada com o poder econômico.”

Apesar de existirem diversos conselhos, quase todos são consultivos. “A gente não consegue barrar nada, é sempre voto vencido quando junta empresas e governos”, lamenta Fernando Costa. “Os conselhos não têm sido uma boa opção. Claro que é uma conquista, mas a própria participação popular que foi uma conquista hoje está capturada pelas empresas, que acabam comprando as pessoas para participarem, ou compram até lideranças com propostas bem indecentes.”

Outro ponto negativo, apontado pelo pesquisador e ecologista Paulo Brack, do Instituto Ingá, é a falta de tempo dos ativistas. “É difícil ter pessoas com tempo e disposição de participar, pois os espaços são minados de apoiadores das políticas governamentais e de grandes corporações, situação que acaba fortalecendo os poluidores.” São pessoas de outros setores pagas para influenciar na política ambiental. A bandeira do meio ambiente está em permanente disputa.

Com o atual cenário de corrupção no país, os líderes das organizações não governamentais que atuam na área ambiental apontam uma dificuldade cada vez maior em achar a legitimidade nesses processos participativos. Para eles, acaba sendo complicado buscar voz nas esferas de conselhos se não há como saber a legitimidade das participações. “É um desgaste enorme para um resultado mínimo”, desabafa Fernando Costa.

O desgaste, ao menos, traz união. “Sempre em grupo, nunca um só”, defende Arno Kayser sobre a forma como as decisões são tomadas. “Quando estamos sozinhos acaba acontecendo uma pressão maior, já aconteceu comigo, inclusive. A sorte que fui meio instintivo e disse que não poderia decidir ali, precisava falar com o resto do grupo. Hoje aderimos a essa estratégia.” Diante de tantas dificuldades de participação, quais devem ser as principais lutas dos ecologistas?

Bandeiras de luta

O pioneirismo do movimento ambientalista gaúcho criou diversas frentes de luta da causa ambiental. Conforme o ex-presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) Leonardo Melgarejo, atualmente as lutas “são as mesmas de sempre”. Mas quais são as lutas de sempre?

Para o ambientalista, que é engenheiro agrônomo de formação, com mestrado em economia rural e doutorado em engenharia de produção, as lutas do movimento ambientalista incluem a proteção da biodiversidade, da água e do solo. Criação e valorização de processos de avaliação de impacto ambientais prévios.

A autorização de atividades econômicas e monitoramento de projetos ambientais já aprovados também entram na lista. Assim como punição rigorosa e exemplar de crimes ambientais e o aprimoramento de legislações ambientais, para que sejam crescentemente protetivas.

Melgarejo ainda cita o comprometimento efetivo dos poderes legislativo executivo e judiciário com as causas ambientais, a defesa do patrimônio natural e o respeito às próximas gerações. A Agapan é a mais antiga das entidades, com 46 anos. Poucas entidades ambientalistas têm sido criadas em Porto Alegre (RS).

Uma das mais recentes é o Instituto Augusto Carneiro, criado em 2010. A entidade atua em questões de energia, como a queima de combustíveis fósseis (carvão, gás e petróleo) e na preservação da Mata Atlântica, bioma que tem menos de 3% da sua mata original ainda preservada no Rio Grande do Sul.

A proteção dos oceanos é outra frente de atuação do Instituto Augusto Carneiro, onde são parceiros na luta pela conservação de espécies marinhas ameaçadas, como o Projeto Baleias do Rio Grande do Sul e a campanha internacional Divers for Sharks (Mergulhadores pelos Tubarões).

A coordenadora do Instituto, Kathia Vasconcellos Monteiro, ex-militante do Núcleo Amigos da Terra Brasil, faz questão de deixar claro que a instituição é modesta, com apenas nove integrantes, que tentam fazer uma abordagem ambiental de forma diferente, não só com um viés ideológico, mas técnico também.

José Lutzenberger ajudou a criar o movimento ambientalista gaúcho e sua luta ainda inspira jovens militantes – Crédito: Apedema-RS/ Divulgação

No entendimento de Arno Kayser, do Movimento Roessler, no momento há uma “necessidade por novos rumos e projetos”. Para ele, há a necessidade de fazer um movimento que não apenas aponte culpados e problemas, mas trabalhe para mostrar soluções e maneiras de corrigir os erros cometidos ao longo do tempo.

“A luta ambiental é uma luta popular no país, que pode ganhar o apelo da juventude, basta que as antigas lideranças, que ainda estão na mesma luta dos anos 1980 e 1990, saibam se conectar com essa atual geração, que tem muito mais habilidade para militar do que a minha”, constata o agrônomo, ecologista e escritor.

Kayser fez parte do grupo de fundadores do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos (Comitesinos), o primeiro comitê de bacia do Brasil. Além disso, ocupa a função de fiscal ambiental na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (Fepam).

“Nos anos 1990, as grandes corporações quiseram se anexar a essa imagem de proteger o meio ambiente, aí se se fortaleceu esse termo ‘ambientalismo’. Mas a luta ecológica é um movimento conjunto com a sociedade. Nós temos de ser muito mais ecologistas do que ambientalistas”, defende Arno Kayser.

O ecologista do Movimento Roessler, como Kayser prefere ser chamado, reconhece que no cenário atual da luta de defesa pelo meio ambiente, “as forças que oprimem são muito grandes, e é preciso encontrar pessoas que se sintam atraídas pelo tema ambiental e chamá-las para a causa”.

Unidade na luta

Coordenador do Núcleo Amigos da Terra Brasil, Fernando Campos Costa aponta necessidade de unificar o movimento ambientalista – não só ele, mas qualquer movimento social. Para Costa, “a unidade da causa é necessária para enfrentar os desafios que estão colocados diante das instituições”.

Para o coordenador dos Amigos da Terra, o desafio é “conter e regular o avanço capitalista e neoliberal na natureza”. Para ele, a transformação da floresta em algo privado e comercial deve ser combatida. “Nós temos que mostrar para as pessoas quais são as soluções reais e viáveis para esses problemas que nós apoiamos”, explica.

Para Kathia Monteiro, “o movimento carece de pessoas”. A Mata Atlântica, as florestas e até questões ligadas a águas são os assuntos que ela monitora em sua jornada de trabalho ambiental. Mas quando o tema é a luta do movimento, em nível estadual, a renovação e a reocupação dos espaços de militância são pontos destacados por ela.

“Nós não conseguimos nos renovar. O desafio não é só formar novas lideranças, mas manter essas pessoas dentro da causa ambiental. O que é complicado, porque ninguém dá dinheiro para manter ativismo, muito pelo contrário”, desabafa a líder do Instituto Augusto Carneiro, nome de um dos fundadores do movimento ecologista gaúcho.

“Quase não temos mais militância, pois as pessoas não tem disponibilidade, o mundo não dá essa permissão”, constata Kathia. Ele percebe que quem está na área, quer executar coisas. Por isso migra para iniciativas de cooperativismo, cria projetos de conservação e até recuperação de áreas degradadas.

Essa acomodação da militância ocorreu ao longo dos anos 2000, na avaliação de Arno Kayser. Para o ecologista, “antes havia motivos para lutar e enfrentar quem estava no poder”. Com a chegada do novo século, houve um alinhamento com a esquerda chegando ao poder no Brasil.

O líder do Movimento Roessler lembra que como “a própria causa ambientalista se alinhava mais a esquerda, houve um período de realização”. “Quem desmatava, não parou de desmatar, quem poluía, não parou de poluir. As forças contrárias seguiram, mesmo com a esquerda no poder.”

Para o coordenador geral do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá), Paulo Brack,  membro da coordenação da Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente (Apedema), o movimento ecológico tem bandeiras que vão além de buscar gente nova.

“Temos que lutar para barrar os ataques governamentais contra a biodiversidade”, exemplifica Brack, referindo-se a legislação aprovada no final do ano passado que autoriza a extinção da Fundação Zoobotânica (FZB) e de outras fundações. Ele ressalta que setores econômicos têm trabalhado para fragilizar a legislação ambiental.

“Em especial, temos de lutar contra a ocupação do território sem barreiras ambientais, contra a facilitação de agrotóxicos, flexibilização de níveis de poluentes, de silvicultura, de mineração e de outras atividades, em grande parte associadas à ‘guerra fiscal’ entre os Estados”, defende Paulo Brack.

Líderes novos para uma causa antiga

Se entre os pontos de destaque levantados pelos ambientalistas, a necessidade de renovação do movimento está presente, resta questionar: como se formam essas novas lideranças? Como a líder do Instituto Augusto Carneiro deixou claro, não há dinheiro fácil para o ativismo. Então como trazer pessoas sem ter como investir na preparação e formação da militância?

Para o ex-presidente da Agapan, os ambientalistas que estão há mais tempo engajados com a causa podem ajudar no ‘despertar’ desses novos líderes, mas não muito mais que isso. “Ambientalistas antigos podem estimular, mas não podem ‘criar’ novos ambientalistas”. Melgarejo chega a afirmar que em certo ponto os mais velhos podem até atrapalhar, “freando iniciativas por questões de vaidade e ego”.

“A formação de lideranças é produto natural do amadurecimento da sociedade e da crescente consciência ambiental. A crise climática, o neoliberalismo, a bancada ruralista, os criminosos ambientais, tudo é fonte de estimulo ao crescimento da consciência ambientalista”, explica Melgarejo. “O surgimento de lideranças resulta do comprometimento do sujeito consciente.”

Assim como Melgarejo, Brack também traça um cenário composto de pessoas mais velhas no movimento. “As ONGs possuem dominância de pessoas que vão dos 30 até mais de 50 anos”. O membro do InGá acredita que parte da juventude parece se aproximar das causas socioambientais, mas revela que faltam programas para fomentar o repasse de experiência das gerações mais velhas.

Para o presidente do Movimento Roessler, essa troca de experiências deficiente ocorre em função de as lideranças mais antigas não terem conseguido fazer uma boa transição e ligação com a forma de militar e de fazer política da juventude. “Esse é um grande desafio, até por conta da ruptura que tecnologia trouxe, os jovens tem um tipo diferente de organização e articulação”, avalia Arno Kayser.

Ele percebe que a maioria das organizações já está voltada para a correção dessa ruptura, com estratégias de mobilização de pessoas mais jovens, que agreguem novos ares à causa ambiental. Mas quais são essas estratégias? O ecologista cita o exemplo do Movimento Roessler, que por meio de projetos busca manter esses jovens por mais tempo dentro das instituições.

“Um projeto tem essa capacidade, porque ele dá um foco para trabalhar. Tem início, meio e fim, faz com que os participantes permaneçam na causa”, ensina. Há dois anos, o Movimento Roessler realizou um Curso de Formação de Lideranças Comunitárias. Houve a formação de uma equipe e a contratação de uma engenheira ambiental de 30 anos de idade, para criar um ambiente mais jovem.

“Se você é um jovem de 20 anos e chega numa reunião de conselho e só vê senhores com seus mais de 50 ou 60 anos, você acaba ficando retraído, inibido”, reconhece Arno Kayser. “Então precisamos trabalhar para mudar isso, e a criação de projetos é um passo importante para atingir essa meta”. E de onde deve vir o dinheiro para os projetos do movimento ambientalista gaúcho?

Dinheiro sujo para fins limpos

Se a formação de novas lideranças se dá, principalmente, com a criação de projetos que atraiam e mantenham as pessoas dentro do movimento ambientalista, financiar esses projetos é um desafio para as ONGs.

Causa que se mantém ativa graças a uma grande massa de trabalho voluntário, o ambientalismo se vê numa tênue linha entre o bem e o mal quanto busca recursos. Pode parecer um clichê, mas quando se trata de aceitar dinheiro para financiar o movimento, os maiores interessados são aqueles que costumam agredir o ambiente em seus ramos de negócio.

“Eu sou financiada com dinheiro sujo, dinheiro que vem da Braskem, da Copelmi (empresas de produção de plástico e extração de minérios, respectivamente)”, revela Kathia. A líder do Instituto Augusto Carneiro explica que apesar do dano que essas empresas causam ao ambiente, elas trabalham com iniciativas de reparo dessas agressões. “A Braskem mantém uma reserva ambiental gigantesca próxima ao seu polo petroquímico e Copelmi trabalha a recuperação das áreas depois de sua exploração”.

Mesmo sabendo que essas empresas prestam esse tipo de apoio para agregar a sua marca o selo de protetores do ambiente, Kathia diz que é uma ajuda que se faz necessária, já que as contribuições e o trabalho voluntário tem se tornado cada vez mais complicado. “Se quisermos colocar projetos em prática e lutar por soluções, precisamos de aporte financeiro, e ele precisa vir de algum lugar.”

Kayser também assume que o movimento se beneficia do patrocínio de grandes poluidoras. O exemplo foi o curso para formar novas lideranças, financiado com recursos da Petrobras Ambiental, setor da estatal especialmente criado para descolar a imagem de poluidora da petroleira. “Eles nos procuram para mostrar que de algum modo tentam compensar os danos que causam ao planeta, para se desprender dessa imagem de grande vilão”, constata o ecologista.

O Movimento Roessler, por exemplo, necessita de cerca de R$ 10 mil ao ano para se manter, é um valor baixo, se comparado ao orçamento dessas grandes empresas, que ultrapassam facilmente a casa dos milhões. Segundo Kayser, o valor é angariado em sua maioria por contribuições voluntárias pagas na forma de mensalidades pelos associados do movimento.

Outros recursos vem de pequenos patrocínios no site e no periódico informativo impresso pela ONG. Ele deixa claro que mesmo aceitando recursos vindos dessas empresas, é necessário saber que elas aos menos trabalham para reparar os danos causados e, caso isso não esteja sendo feito, a saída é abrir mão do dinheiro.

“Mas sempre temos de estar cientes de que dinheiro está chegando às nossas mãos. Já tivemos caso de uma empresa que nos patrocinava e começou a usar práticas das quais lutávamos para serem mudadas. Obviamente, foi necessário encerrar a parceria”, exemplifica o líder do Movimento Roessler.

Melgarejo se mostra contrariado quanto à ideia de receber o “dinheiro sujo” para financiar projetos. A Agapan, entidade que ele presidiu recentemente, é conhecida por ter seu trabalho baseado em contribuições voluntárias de pessoas físicas e mensalidades de associados.

A Petrobras Ambiental, por exemplo, selecionou oito projetos socioambientais gaúchos na última seleção publicada em seu site, na metade de 2014. O valor destinado a esses trabalhos foi de R$ 2,3 milhões. O valor total, investido em 57 projetos em quatro estados brasileiros, foi de R$ 16 milhões.

“A possibilidade de obter recurso de empresas privadas é por vezes sedutora, mas quase sempre comprometedora. Eu particularmente creio que deve ser evitada”, defende Leonardo Melgarejo, ex-presidente da Agapan. O dinheiro está escasso, mas pelo menos a internet barateou os custos da divulgação das campanhas.

Mobilização nas redes sociais
A ferramenta de eventos da rede social Facebook é muito utilizada para chamar a atenção dos jovens para assuntos ambientais – Crédito: Reprodução

Nos primórdios do movimento ambientalista gaúcho, as campanhas e a mobilização do público eram feitas através do enorme espaço disponibilizado nos jornais impressos. O Correio do Povo, por exemplo, deu lugar a diversas crônicas de Henrique Roessler e também concedeu espaços generosos para a Agapan de Lutzenberger.

Roessler e também Lutzenberger utilizavam a mídia impressa da época para denunciar as barbáries contra o meio ambiente e também incentivar e trazer novos colaboradores para a causa ambiental. Em seus textos, disponíveis no arquivo do jornal, também é possível encontrar preceitos de educação ambiental.

Hoje, a realidade é outra. Com a tecnologia cada vez mais presente na sociedade, a mobilização se dá muito mais pela internet, explica a historiadora ambiental Elenita Malta. “Claro que permanecem as reuniões presenciais dos grupos, mas as campanhas mais quentes se dão pela internet, especialmente pelas redes sociais”, constata.

Para mobilizar e trazer novos militantes para o movimento deve se pensar nas formas de chamar atenção do público desejado, e a internet é um meio facilitador para isso. Como um dos desafios do movimento ambientalista é trazer jovens, até para dar continuidade ao trabalho futuramente, as redes sociais são o chamarisco desse público.

“Nós identificamos o público já convertido, o pessoal que já tem uma consciência do assunto, e as pessoas que não tem essa informação”, conta o coordenador dos Amigos da Terra. “Ainda usamos o panfletinho, a mídia impressa, a rádio comunitária, todas as ferramentas possíveis”, informa Fernando Costa.

As campanhas, na visão do ex-presidente da Agapan Leonardo Melgarejo tendem a ser reativas, em resposta às crises. “Não temos energia nem recursos para nos anteciparmos aos problemas”, reconhece o militante substituído recentemente na presidência da entidade pelo biólogo Francisco Milanez.

O “patrocínio” para colocar as ações em prática vem do próprio bolso dos ambientalistas. “As manifestações maravilhosas de rua a gente não tem mais. É pouca mobilização”, lamenta Kathia Monteiro, do Instituto Augusto Carneiro. “O pessoal não sai do trabalho cansado e vai pra manifestação. Ficou tudo muito simbólico.”

Paulo Brack, do Ingá, concorda com Kathia sobre a falta de tempo, questão que aflige muitas pessoas. “Quando estamos premidos pelo tempo de ações emergenciais, acabamos tomando ações de mobilização mais fortes inclusive na rua, mas as manifestações predominam pela internet”, afirma.

O futuro

Para perpetuar a existência do movimento ecológico, é necessário atrair jovens, pessoas que construirão o seu futuro. Mas qual deve ser o foco da luta?

“Não deixar virar ambientalismo de mercado”, propõe o coordenador dos Amigos da Terra. “Ainda que hoje não sejam só ambientalistas que defendem a natureza, o que já é uma grande vitória para nós, existem as pessoas que só pensam em se promover através do movimento ecológico”, alerta Fernando Costa.

O anseio do professor, pesquisador e ecologista Paulo Brack, do Ingá, é por buscar uma “atuação cada vez mais qualificada, provocando mais e mais os governos, o legislativo e a justiça, para a preocupação com o meio ambiente e as condições da população pobre”.

Fernando Costa segue na mesma linha, exemplificando que “não se pode deixar despercebido àquele que passa fome e se focar em lutar somente pelas plantas”. As temáticas sociais também devem estar de certa forma, ligadas ao movimento ecológico.

O Núcleo Amigos da Terra Brasil promove, todo segundo sábado de cada mês, a Feira Agroecológica Frutos da Resistência, que consiste na troca de informações dos enfrentamentos e resistências que se dão em Herval, no sul do Estado; Maquiné, no litoral; no Cinturão Verde, na Zona Sul de Porto Alegre e através das ações do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.

O ex-presidente da Agapan pensa de forma semelhante. “Um grupo considera que a pauta ambientalista não deve ser ‘contaminada’ por outros temas. Que existem questões ambientais, sociais e políticas. Eu concordo com o outro grupo, que entende ser impossível dissociar estas coisas, que ficar em cima do muro equivale a ficar ‘do lado de lá’.”

Dessa forma, o futuro do movimento deve passar pela crescente renovação, para adaptar-se com a época em que se está, e também pela política de aproximação dos outros movimentos.

“Penso que o primeiro grande ambientalista deste país foi Josué de Castro. Ele mostrou que a miséria deve ser enfrentada por todos porque afeta a todos e decorre do interesse de alguns. O ‘todos’ aí neste contexto envolve passarinhos, árvores, bactérias, gente, os animais, enfim. A crise ambiental resulta da miséria humana. Envolve problemas éticos e morais”, explica Leonardo Melgarejo, da Agapan.

Entre os desejos do presidente do Movimento Roessler, Arno Kayeser, estão as ocupações dos espaços de poder, o maior engajamento para trabalhar com a sociedade e pensar amplamente nas soluções para o movimento ecológico.

O movimento ambientalista gaúcho e o próprio conceito de meio ambiente no Rio Grande do Sul foram construídos ao longo dos últimos quarenta anos e, neste período, se transformaram e se definiram de maneiras diferentes em contextos diferentes.

Agora, resta olhar para o futuro, lembrar o passado e entender como e porque o movimento chegou onde está. Conhecer suas origens é fundamental para trabalhar nos rumos que deve seguir este pioneiro que luta constantemente para se renovar.

As origens
Protesto contra poluição do Polo Petroquímico de Triunfo (RS) no início da década de 1980 – Crédito: Divulgação Agapan

A necessidade de brigar pela conservação da biodiversidade do Estado e ideias vindas de mentes, até então anônimas, de um grupo de pessoas que estava preocupado com o meio ambiente muito antes de o assunto entrar na pauta internacional. Esses são alguns dos elementos que fizeram do Rio Grande do Sul um pioneiro quando o assunto é a proteção ambiental no Brasil.

Uma dessas figuras de vanguarda foi o padre jesuíta Balduíno Rambo. O jesuíta deixou um vasto acervo na forma de artigos científicos, livros didáticos e em seu diário pessoal. Em 1942, publicou sua primeira grande obra, chamada A Fisionomia do Rio Grande do Sul, descrevendo flora, fauna, clima e características geográficas de cada região do Estado, como a Serra, o Litoral e o Pampa.

Em seus escritos, ele já alertava sobre os problemas ecológicos que começavam a aparecer no Estado, tornando-se um dos precursores do ambientalismo no país. Também destacava a importância de proteger os monumentos naturais, pois “eram criações da natureza de importância científica”.

A proteção a espécies botânicas e geológicas, e a conservação dos Parques Naturais e Nacionais também estavam entre suas lutas pessoais. O botânico foi um dos fundadores e o primeiro diretor do Museu Rio-Grandense de Ciências Naturais, além de, por sua sugestão, terem sido criados o Jardim Botânico e o Jardim Zoológico do Rio Grande do Sul. A obrga de Rambo influenciou os principais ecologistas gaúchos.

Militante pioneiro

“Considero como início do movimento ambientalista a fundação da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), em 1971. Antes disso ainda podemos falar em iniciativas de conservação e proteção pelas quais lutava Henrique Roessler. A primeira reivindicação da associação foi contra a poda incorreta e o corte de árvores em Porto Alegre. Eles começaram com reivindicações locais, que foram se expandindo. Também importante no início foi a luta contra a poluição da Borregaard (atual CMPC Celulose Riograndense), o combate aos maus tratos a animais e à caça indiscriminada”, explica a historiadora ambiental Elenita Malta.

Henrique Luís Roessler ficou conhecido como o primeiro fiscal ecológico do Estado. Por iniciativa própria, ele supervisionava as atividades de caça e pesca da região. Logo conseguiu credenciamento com o Ministério da Agricultura para atuar de forma oficial. Mas a habilitação se perdeu quando Roessler multou sem autorização curtumes que despejavam resíduos no rio de São Leopoldo.

Em 1954, ele criou a União Protetora da Natureza (UPN), a primeira do gênero no país, que tinha sede em sua própria casa. Três anos depois, já contava com o apoio de 280 membros. Escrevendo diversas crônicas ao Correio do Povo Rural, o ambientalista denunciava incessantemente na imprensa os danos feitos ao meio ambiente.

A Agapan

Passando oito anos da morte de Roessler e do fim da UPN, um grupo de pessoas se uniu para criar uma entidade de proteção à natureza em Porto Alegre. Então, na década de 1970 uniram forças e formaram a Associação Gaúcha de Proteção do Ambiente Natural (Agapan). Ela foi criada por um grupo cujos nomes mais conhecidos são o engenheiro agrônomo José Antonio Lutzenberger, Hilda Emma Wrasse Zimmermann e Augusto Cunha Carneiro.

O pensamento desses representantes era de que a ação humana seria a principal responsável pelos danos ambientais que poderiam dar fim à vida no planeta.

Com o passar do tempo a ONG foi ganhando notoriedade pública, conseguindo grandes conquistas em um momento que o ambientalismo não era levado a sério. Lutzenberger usava da base científica em seus discursos, o que agregava novos interessados nas reuniões semanais da associação.

A Agapan logo ganhou apoio da população, principalmente por causa de umas das suas lutas mais conhecidas, contra a Borregaard, empresa produtora de celulose que poluía o ar de Porto Alegre e as águas do Guaíba. No tempo em que presidiu a associação, Lutzenberger publicou diversos artigos, que tiveram ampla divulgação, além de realizar palestras por todo o Brasil e também no exterior.

“Nosso patrimônio genético agrícola está sendo sequestrado. Deveria ser tema de segurança nacional”

José Maria Tardin: “Patrimônio genético agrícola está sendo seqüestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Marco Weissheimer

“O patrimônio genético agrícola brasileiro deveria ser tratado como um tema de segurança nacional. No entanto, o que estamos vendo é esse patrimônio está sendo seqüestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais. A erosão genética no Brasil já é muito grande.” A advertência é de José Maria Tardin, integrante do Conselho Gestor e educador na Escola Latinoamericana de Agroecologia (ELAA), localizada no assentamento Contestado, no Paraná. Tardin atua na formação em agroecologia nas escolas técnicas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e em cursos de especialização em agroecologia organizados pelo MST em parceria com universidades e institutos de pesquisa no Brasil e em vários países da América Latina.

Tardin esteve em Porto Alegre participando de um debate organizado pela Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) sobre a relação entre a agroecologia e os saberes de comunidades tradicionais. Além disso, participou de um seminário organizado pelo setor de educação e produção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul que discutiu a introdução da agroecologia nas escolas infantis e de ensino fundamental do MST em nível nacional. “Serão milhares de crianças que, nos próximos anos, estudarão agroecologia sistematicamente. Estamos dando um passo que representa uma das maiores alegrias da minha vida”, diz Tardin.

Filho de agricultores e trabalhando há décadas com o tema da agroecologia, Tardin fala, em entrevista ao Sul21, sobre as raízes tradicionais desse tipo de agricultura no Brasil, destaca a decisão do MST de definir a agroecologia como uma agenda estratégica para o movimento e aponta os preconceitos e ameaças que pairam sobre a agricultura camponesa no Brasil, na América Latina e em todo o mundo. A erosão genética e a perda de saberes tradicionais são algumas delas.

Sul21: Como nasceu seu envolvimento com a agroecologia e, mais especificamente, com o ensino da agroecologia em escolas técnicas em diversos países da América Latina?

José Maria Tardin: Nasci no interior de São Paulo, filho de uma família camponesa que migrou das montanhas do Rio de Janeiro e se instalou em Martinópolis, região oeste do Estado. Meus pais chegaram nesta região como sem terra, conseguiram se estabelecer, mas depois perderam a terra no processo da Revolução Verde. Eu e um irmão fomos os únicos que seguiram na agricultura. Meus outros irmãos foram para outras áreas profissionais. Acabei indo para o Paraná onde morei por 34 anos, trabalhando como técnico. Em 2005, me engajei organicamente no Movimento Sem Terra, com a responsabilidade de atuar com as equipes que estavam dando início à criação da rede de escolas técnicas de agroecologia do MST e da Via Campesina. Desde aí, estou envolvido nesta área de militância em toda a América Latina.

“O primeiro campesinato que vai constituir o MST vem de uma tradição que chamamos de agricultura tradicional”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Sul21: Nos últimos anos, o arroz orgânico se tornou um carro-chefe da produção dos assentamentos do MST no Rio Grande do Sul. Qual a dimensão hoje do trabalho com a agroecologia promovido pelo MST, pela Via Campesina e por outras organizações ligadas à agricultura familiar?

José Maria Tardin: A agroecologia aparece de distintas maneiras no trabalho do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Se olharmos para a origem do MST, o primeiro campesinato que vai constituir o movimento vem de uma tradição que chamamos de agricultura tradicional. É um campesinato meeiro, sem terra, agregado, mas que vinha com uma larga experiência de uma agricultura de base ecológica bastante estabelecida. Parte deles, dependendo da situação, já adotava algumas práticas da agricultura industrial, sobretudo o uso de fertilizantes e de sementes certificadas. Essas famílias, na medida que foram se estabelecendo, passaram a reproduzir essa agricultura tradicional, preservando um patrimônio de conhecimento e também um patrimônio genético agrícola crioulo bastante diversificado. Isso ainda é muito forte no Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste do Brasil.

Outra vertente que fará esse trabalho emergir no MST é a influência de agrônomos que tiveram uma formação bastante sensibilizada pela organização interna dos estudantes da Feab (Federação dos Estudantes de Agronomia) que tiveram um contato muito forte com agroecólogos pioneiros, sobretudo nos anos 80, que se articularam em um movimento chamado de agricultura alternativa. Esse movimento contestava a Revolução Verde com muita competência técnica e científica e capacidade de mobilização política. Muitos estudantes de agronomia foram atraídos a esse ideário de agricultura alternativa. Muitos deles, ao entrarem no Movimento Sem Terra, passaram a dinamizar, junto a essas famílias que tinham uma formação de agricultura tradicional, uma agricultura agroecológica.

Um exemplo disso aqui no Rio Grande do Sul é a Bionatur, que alia o perfil de uma agricultura tradicional com o de agrônomos militantes muito ativistas e entusiasmados com a ideia da agricultura orgânica. Em regiões como o Nordeste brasileiro , onde o campesinato sertanejo tem uma forte base tradicional, esse conhecimento tradicional foi se mantendo numa escala que, mesmo dentro do Movimento Sem Terra, não se tem uma noção exata do tamanho. Isso ainda não foi mapeado, mas é muito expressivo. Estou enfatizando muito o Nordeste porque é onde se concentra 70% da base social do MST com experiências bastante diversas.

Em 2000, MST definiu a agroecologia como um tema estratégico de sua agenda. Hoje já é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina. (Foto: Joana Berwanger/Sul21)

Há cerca de dois anos fui ao assentamento Maceió, no Ceará, que possui 16 quilômetros de praia. É uma praia paradisíaca, super-preservada, com dunas lindas. É uma assentamento grande, com mais de 500 famílias, que está sendo ameaçado por empresas de resort que querem tomar parte da área da praia para instalar hotéis de luxo. Outro setor empresarial que pressiona o assentamento é o da energia eólica. Eles precisam manter um acampamento permanente na praia para protegê-la da invasão empresarial. É uma rotina de 24 horas por dia e 365 dias por ano. O MST, como ato político para repercutir nacionalmente, criou lá a regata dos Sem Terra no mês de julho, que reúne milhares de pessoas.

As famílias vivem da agroecologia e da pesca com jangadas. É uma agricultura tradicional. Não são pessoas que passaram por um movimento agroecológico. É a tradição camponesa do sertanejo que ocupa a terra no litoral e realiza uma agricultura extremamente diversificada, em um padrão muito próximo do modelo agroflorestal, complementando essa atividade econômica com a pesca de jangada. É um assentamento totalmente coletivizado, sem divisão em lotes. Essa, aliás, é uma característica muito forte no Ceará, tanto no litoral como no sertão. As famílias têm um processo de organização dos assentamentos muito coletivizado, o que é muito mais desafiador em vários sentidos. Sempre desafiei os estudantes do MST do Ceará a pesquisar esse fenômeno, mas ainda não foi feita nenhuma pesquisa a respeito. É algo ainda a ser investigado.

Outra vertente que vai influenciar o MST, do ponto de vista da agroecologia, é a articulação nacional para além do campo, que produziu interfaces com ONGs ambientalistas, de agricultura orgânica, alem do próprio processo da Eco 92, no Rio de Janeiro, e do Fórum Alternativo dos Povos que ocorreu naquela ocasião. Vem daí também uma certa tensão que se desenvolveu entre o MST e setores ambientalistas que acusavam o movimento de ser degradador da natureza. Tudo isso foi desafiando o movimento a ir se qualificando neste tema. Outro acontecimento importante, em 1993, foi a presença do MST como fundador da Via Campesina internacional. Isso lançou os militantes do movimento em um processo de intercâmbio internacional que nos permitiu conhecer comunidades camponesas de agricultura ecológica de dois, três mil anos de história, na América Latina, na Ásia e, mais recentemente, na África. Essa efervescência internacional do campesinato trouxe para o MST uma gama diversificada de conhecimentos.

Sul21: Quando a agroecologia passou a integrar formalmente a agenda programática do movimento?

José Maria Tardin: O quarto congresso nacional do MST, que ocorreu em Brasília, em 2000, definiu a agroecologia como uma política estratégica do movimento. O tema passou, a partir daí, integrar as diretrizes nacionais do movimento. A orientação estratégica passou a se reorientar as famílias para fazer essa passagem da agricultura convencional para a agroecológica. Uma das primeiras decisões que o MST tomou para concretizar essa diretriz foi começar a formar técnicos. Esses técnicos não estavam disponíveis. Pelo contrário, eram raros. Assim, a formação de técnicos foi a prioridade das prioridades. Naquele momento, não existia no Brasil nenhum curso de formação em agroecologia. O MST deu um passo de vanguarda e iniciou uma experiência ainda embrionária, em 2001, para testar currículo e método pedagógico. Em 2002, começaram os primeiros cursos técnicos de agroecologia no Paraná. Em 2003, iniciaram os cursos também no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito Santo, surgindo um grupo de escolas de nível médio para formar as primeiras turmas de técnicos em agroecologia.

“Intercâmbio internacional nos permitiu conhecer comunidades camponesas de agricultura ecológica de dois, três mil anos de história.” (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O andar dessa experiência gerou uma efervescência no movimento e logo depois se decidiu que era preciso partir logo para cursos de graduação. Essa costura foi feita pela Via Campesina Latinoamericana. Em 2005, durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, foi assinado um termo de cooperação com representantes dos governos do Brasil e da Venezuela para, entre outras coisas, criar a Escola Latinoamericana de Agroecologia no Paraná e do Instituto Latinoamericano de Agroecologia, na Venezuela. Assim, em apenas cinco anos, passamos de uma situação onde não havia nenhuma escola de agroecologia no Brasil para a criação da primeira escola de graduação. Logo depois, criamos outra escola no Pará, no assentamento Zumbi dos Palmares. Impulsionada por essas experiências, a Via Campesina criou o Iala Guarani, no Paraguai, o Iala Maria Cano, na Colômbia e o das Mulheres Campesinas, no Chile. Queremos abrir também uma escola no Haiti, mas lá a situação é mais complicada.

O ponto de partida de todo esse processo foi a escola cubana. Quem saiu na frente em educação em agroecologia na América Latina foi o Estado cubano, logo depois da queda do Muro de Berlim e da crise que se seguiu em Cuba em função do colapso da União Soviética e do leste europeu. O governo cubano deliberou que era preciso encontrar soluções técnicas para dar conta das demandas de alimentação. Foi um processo interessante, pois Cuba tinha adotado totalmente a Revolução Verde, com um modelo de agricultura industrial subsidiado pela União Soviética.

Os pesquisadores foram para as áreas mais longínquas das montanhas para falar com os camponeses que mantiveram a agricultura tradicional e não entraram na Revolução Verde. Esses camponeses tinham preservado todo um campo de conhecimento e material genético agrícola, vegetal e animal. Com base neste conhecimento e com a qualidade científica dos pesquisadores cubanos, foi iniciado um programa enorme de pesquisa em agroecologia e de educação em agroecologia. Antes de iniciar a nossa experiência, alguns militantes nossos foram para Cuba para conhecer esse sistema de pesquisa e de educação que já estava andando lá desde 1994. A nossa experiência piloto iniciou em 2001. Cuba criou um programa nacional em agroecologia e é hoje a grande escola latinoamericana nesta área. Hoje, o país tem 100 mil famílias camponesas fazendo agroecologia.

Sul21: Ainda hoje há um certo senso comum que associa a agricultura tradicional ao atraso. Você poderia dar alguns exemplos de como esse conhecimento tradicional tem atualidade para dar conta de problemas do presente?

José Maria Tardin: O campo em geral, sobretudo na America Latina, sofre uma discriminação enorme. É muito difícil para o campesinato e para os povos indígenas se afirmarem como detentores de saberes importantes para a sociedade. Há um poderoso histórico de negação dessa sabedoria. Se conhecermos minimamente a história da agricultura, essa tese cai por terra. A sociedade só chegou a ser o que é hoje porque, um dia, mulheres e homens no campo descobriram a germinação da semente, começaram a domesticar animais e a desenvolver o que somos hoje. O desconhecimento desse processo histórico é uma das razões pelas quais a população camponesa, indígena, quilombola e ribeirinha não seja considerada como detentora de conhecimento. Esse é um traço da ideologia dominante para desqualificar essas populações.

Hoje, em qualquer lugar do mundo, você vai encontrar essas populações resistindo a toda essa pressão não só ideológica, mas que se expressa de diferentes formas, mantendo seus conhecimentos e a agrobiodiversidade que é a base da agricultura. Hoje, em nível mundial, 70% da alimentação da humanidade é produto do trabalho camponês, da agricultura familiar. Essa não é só uma realidade brasileira.

‘Há um poderoso histórico de negação dessa sabedoria camponesa tradicional.” (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Eu comecei trabalhar no Paraná em 1981 e tive uma experiência que foi muito forte para mim. Em todo o centro-sul do Paraná e em parte do norte de Santa Catarina, o campesinato gerou um sistema muito específico chamado de “faxinal”, termo que pode ser traduzido como “mata rala”. Era um sistema autogestionário com um grande território em comum chamado de “criadouro”, dentro do qual eram mantidos os animais. Essa área também tem um espaço de floresta, caracterizando um sistema silvo-pastoril, com pastagem nativa e erva mate em grande quantidade. As famílias moravam aí dentro, cada uma com um pequeno quintal para cultivar coisas do dia-a-dia. Os rebanhos, altamente diversificados, eram criados soltos dentro desse território.

A bibliografia que eu conheço, que pesquisou um pouco mais a fundo esse sistema, relata que ele tem suas origens no início do século 19, em especial a partir da chegada de grandes levas de imigrantes. Uma pesquisadora do Paraná relatou que os caboclos faziam pequenas roças a partir da abertura de clareiras na Mata Atlântica. Essa roça era cercada por causa da presença dos animais silvestres. Com a chegada dos imigrantes europeus em grande quantidade, esse sistema se inverteu. Eles aumentaram a área dos rebanhos e passaram a morar nesta mesma área, fazendo a agricultura para fora da cerca. Quando você anda por essa região verá que os animais estão nas partes mais planas, onde tem água, e a agricultura está na parte mais acidentada.

A produção desse sistema era muito grande e altamente diversificada. Quando cheguei lá, em 1981, era raro ver uma família usar um fertilizante químico. A diversidade agrícola era enorme e o grau de soberania alimentar era pleno. Além disso, todas essas comunidades tinham alguma agroindústria de erva mate, farinha de mandioca ou de milho. As escolas também eram comunitárias e, em um período mais antigo, eram bilíngües, dependendo da presença de cada grupo, tinhas grupos de teatro e uma sociabilidade muito grande, com uma forte presença religiosa.

Sul21: O que houve com esse sistema?

José Maria Tardin: Na década de 80, a Revolução Verde penetrou com força na região e detonou quase tudo. Hoje, existe um movimento dos faxinalenses para tentar salvaguardar alguma coisa. Se você anda na região hoje, as comunidades continuam se identificando como habitantes do faxinal, mas são pouquíssimas que mantém os criadouros comunitários. Entraram muitos agricultores de fora que compraram terras e começaram outros plantios como é o caso da soja. Foi um processo com muito conflito. Participei de assembleias comunitárias realizadas em um clima de rebelião. Mas a maioria do sistema desmoronou. Eu vi essas comunidades serem destruídas pela Revolução Verde. Lamentavelmente, essa experiência foi pouquíssimo estudada.

“Nestes sistemas de agricultura camponesa, a produção de alimentos é fantástica”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Algo similar a isso ainda é muito forte no Nordeste, onde há um sistema chamado de “fundo de pasto”. É uma grande área de uso comunitário para os animais. As famílias manejam os seus animais em um curral próprio e depois eles são soltos em uma vasta região que eles chamam de fundo de pasto, alimentando-se de forragem nativa. Eles vivem na caatinga mesmo. Esses sistemas tradicionais nunca foram apoiados por políticas públicas. Foram sendo construídos e sustentados pelas próprias famílias, sem um anteparo de políticas de Estado. O potencial agroecológico deles é enorme e a sua produtividade muito alta. Eu duvido.

Sul21: O argumento da produtividade costuma ser utilizado contra essas formas de agricultura camponesa…

José Maria Tardin: Sim. É uma grande mentira. Nestes sistemas de agricultura camponesa, a produção de alimentos é fantástica. É uma farsa essa história que o nordestino sertanejo é um lascado miserável que está sempre morrendo de fome. É uma versão preconceituosa.

Outro exemplo importante ocorre na Amazônia. As quebradeiras de côco e de babaçu, depois de muita luta, conquistaram uma legislação importante. O babaçu é uma árvore protegida por lei. Um latifundiário não pode derrubar os babaçuais e as mulheres têm o direito de entrar nas fazendas para colher o babaçu. Elas têm livre acesso a qualquer área onde tenha babaçu, não interessa se é de um empresário de São Paulo ou de uma transnacional. Com isso, elas fazem um enorme trabalho de preservação da floresta e dessa espécie em particular. É um sistema extrativista 100% sustentável, envolvendo uma escala territorial gigantesca. São milhares de pessoas trabalhando nesta modalidade que eles mesmo geraram dentro da Amazônia, assim como tivemos também o caso fantástico do movimento extrativista gerado pelos seringueiros, do qual Chico Mendes foi uma das principais lideranças.

Um documentário intitulado “Para onde foram as andorinhas?” mostra que onde o agronegócio está chegando na região amazônica está gerando um impacto avassalador dentro dos territórios indígenas. A deriva dos herbicidas começa a afetar a vegetação e as frutas. Mesmo sendo aplicado com trator, uma quantidade razoável de agrotóxico vai embora com o vento. No caso da pulverização aérea nem se fala. Aí é crime total. É guerra do Vietnã mesmo. Esse documentário mostra que, quando eles começam a usar agrotóxico na soja, as nuvens de percevejo que atacam a soja vão para dentro da floresta e atacam as frutas nativas e as cultivadas pelas comunidades indígenas. O percevejo da soja é transmissor de um vírus que detona a produção de alimentos dos indígenas. Bananais, cajueiros, jaqueiras, abacateiros e outras plantas começam a morrer. Esse documentário é doloroso.

O nosso patrimônio genético agrícola deveria ser tratado como um tema de segurança nacional. No entanto, o que estamos vendo é esse patrimônio está sendo sequestrado das comunidades e armazenado em bancos de germoplasma para ser utilizado por transnacionais. A erosão genética no Brasil já é muito grande. O Brasil é um centro de origem da mandioca, por exemplo. Muitas variedades e mesmo espécies estão se perdendo. Essa perda é diária. O livro “Século 21: erosão, transformação tecnológica e concentração do poder empresarial”, de Pat Roy Mooney, mostra números da perda de biodiversidade em escala global. Antes dessa obra, ele lançou aqui em Porto Alegre outro livro, “O escândalo das sementes”. Em seu trabalho, ele também pesquisa os genocídios étnicos e a erosão das línguas humanas. O século 21, adverte, será o século do extermínio das línguas locais.