Ocupe-se!

Por Monica Meira – Coletivo A Cidade Que Queremos

Desde 2014, Porto Alegre assiste à uma explosão de ocupações, tanto organizadas como espontâneas, sejam na área central ou periférica da cidade.

O agravamento das condições de vida, os aumentos nos aluguéis, precarização das relações de trabalho e ineficácia das políticas públicas de demandas sociais conduzem uma parte da sociedade para áreas de riscos e espaços abandonados.

Embora a luta pela moradia seja o traço mais frequente, nesse Fórum temos exemplos de ocupações localizadas nas áreas centrais com caraterísticas distintas e diferentes arranjos na forma de organização e de articulação com diversos movimentos sociais, e que refletem as muitas outras reivindicações históricas.

Lado a lado, alguns coletivos – o célebre assentamento do Utopia e Luta, a ocupação Lanceiros Negros e a memória do Massacre de Porongos, o movimento de mulheres Olga Benário em Porto Alegre (Mirabal), a Ocupação Pandorga e o Ocupa Minc comprometidos na promoção de arte, cultura e educação e a mobilização dos secundaristas contra a reforma do ensino médio e a PEC 241/55 – vêm aqui para nos contar sobre suas lutas e conquistas, seus desejos e frustrações, sobre avanços e limitações.

Essas experiências coletivas marcam a (re)atualização dos conflitos e das formas de expressão política pelos direitos, buscando romper com a predominância das relações individualistas e privatistas da sociedade. Elas se expandem à revelia de planos, leis e políticas públicas que delas NÃO se ocupam. Disputam a retomada do valor de uso da cidade em contraposição à preponderância do seu valor de troca.

São respostas às políticas neoliberais vigentes em tempos de capitalismo hardcore, quando a reprodução do capital adquire o caráter específico de “acumulação por espoliação” (HARVEY, 2003; 2005), reações viscerais à multiplicação dos espaços sociais esvaziados, da incerteza e insegurança. Tornam visível uma condição singular (analítica e real) de quase indiferença entre processo e estrutura. Definem dessa maneira, um tópos social específico dos “sujeitos liminares”, aqueles que não estão nem aqui nem lá, mas betwixt and between, isto é, entre as posições institucionalizadas – “destinadas e arranjadas pela lei, costume, convenção e cerimonial da sociedade” (TURNER, 1969).

Se ocupar é se apropriar de um espaço que, a princípio, não lhe pertence significa, também, “conquistar o direito de”, “aplicar atenção ou cuidados em algo ou alguém”. São ações fundamentais de direito à cidade e à vida, espécie de tecnologia social contra a invisibilidade produzida, formadora de consciência ao falar com outros além de nós e rizomática na forma de resistência, florescendo pelas brechas de uma sociedade cada vez mais plástica.

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