A cidade perdida na névoa do velho, por Renato Dalto

Fonte: RS Urgente

Renato Dalto (*)

Está em algum lugar, adormecida, a antiga alegria das ruas mais inquietas. As ruas do centro que tiveram os pés de Quintana, as ruas da Cidade Baixa onde aconteceram procissões teatrais da Terreira, os bairros onde adolescentes faziam oficinas de teatro, os tablados com bailarinos, o pequeno comércio permeado de gentileza, os sábados de reuniões onde se chamava o prefeito pelo nome. Esse jeito de governar tornou a cidade referência mundial em democracia participativa. E o mundo veio aqui, através do Fórum Social Mundial. Foi com alegria e sentido de coletividade que se armou o acampamento de muitas bandeiras na orla Guaíba, que parece ter deixado pequenos legados, como o tempo das bicicletas e da arte ao ar livre. Mas um dia, lá atrás, dois poetas de araque cinicamente bairristas cantavam durante o assalto que começou o desmanche: “Deu pra ti, baixo astral”. E a cidade elegeu um verso, uma nuvem, algo difuso que nem cabia em si mesmo. Porto Alegre aprendeu a trocar a vivacidade pela mediocridade. E nunca mais foi a mesma.

Onde tudo se perdeu não sei. Sei que à pulsação inquieta seguiram-se tempos mais comportados e espaços mais fechados. Os cinemas foram saindo da calçada e migrando para dentro dos shoppings. Nos bairros onde pulsava cultura, novamente as armas fizeram a lei. Certa vez fiz um trabalho sobre as oficinas de teatro de Porto Alegre. Santa Rosa, Teresópolis, Restinga, Bom Jesus, Alto Petrópolis, Parque dos Maias , cada um tinha cara e vida própria. A turma da Bom Jesus, que conheceu de perto a algema, a intimidação e a porrada, fez disso um espetáculo magistral de final de ano e contou a própria vida na boca de cena do Renascença. Foi aplaudida de pé naquela noite. Parecia que ali, todo mundo enfim entendia que uma cidade não pode ter a vida do centro e da periferia. E que tudo era uma coisa só. Que era preciso debochar das algemas, exorcizar a porrada, desdenhar do complexo de inferioridade e enfim abrir a boca de cena a todos. Foi assim, mas para a mediocridade bem comportada talvez tenha sido demais.

Quando os bairros aprenderam que a qualidade começa com o saneamento, que a identidade pode nascer da arte, que a educação não é um fenômeno de escola e sim de convivência, parece que tudo ficou óbvio demais. A felicidade coletiva pode ser uma coisa enfadonha. Então veio o velho discurso, o verbo que traz a perversidade do predicado: Mudar. Mudar que pode ter dois rumos. Pra melhor ou pra pior. O novo prefeito prometia vagamente manter o que está bom e mudar o que não está. Como se isso fosse a maior novidade do mundo. E desde então Porto Alegre vive o estranho fenômeno da política do faz de conta.

Faz de conta que o Cais da Mauá será ocupado por um belo projeto, até alguém ver que tem por trás o jogo escuso da grana. Faz de conta que a cidade continua participando, mas aquela experiência que o mundo consagrou, chamada Orçamento Participativo, é uma caricatura decadente do que já foi. Enfim, faz de conta que agora Porto Alegre reelegerá o novo. O novo velho jeito que, no governo do estado, foi o símbolo da truculência, da falcatrua, do autoritarismo e da onipotência doentia. E aí vem o clichê da propaganda: “A nova atitude”. Oh! a nova atitude.

O jovem truculento, filho de um expoente político que sustentou a ditadura, tem um adversário que mostra uma cidade tipo comercial Zaffari: a vida resolvida e todo mundo feliz. Ridículo como aquele pote de margarina aberto como símbolo de saúde. Enfim, a cidade real ignorada, espinafrada, cinicamente envolta em outras duas embalagens de faz de conta. Não é de agora.

Não é novidade. Quando a imagem da fantasia baixa, tristemente vêm à tona esse comportamento taciturno, cabisbaixo, sem sentido- e que vem se plantando há muito tempo. A política envelheceu derradeiramente, mas também os que protagonizaram os melhores tempos da cidade perderam, lá atrás, a pulsação das ruas enterrada nos gabinetes, na burocracia e no amor aos cargos.

Tudo isso para dizer que cada um de nós foi ajudando a pintar essa aura de velharia, que hoje se manifesta nessa melancólica eleição onde tudo é tão óbvio e, debochadamente, se atribui o papel de novidade. Porto Alegre se perdeu há muito tempo. A felicidade é a mais insuportável lei de uma cidade doente. Por isso agora Porto Alegre vai fazer que elege o futuro, que esqueceu o passado e que sabe para onde vai. A névoa cai e o velho caminha. Para onde?

(*) Renato Dalto é jornalista.

 

 

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