O renascimento urbano do Bom Fim

Sinais de gentrificação hipster em Porto Alegre?

Paulo Roberto Rodrigues Soares

FONTE: Vitruvius

O geógrafo Neil Smith foi um dos grandes formuladores do conceito, com a teoria do rent gap (1), pela qual os diferenciais de renda do solo entre centro e periferia urbana seriam os responsáveis pela gentrificação. Os capitais imobiliários estariam constantemente atuando em um jogo de valorização-desvalorização-revalorização de setores da cidade. Ao expandirem o tecido urbano (urban sprawl) valorizam o solo urbano periférico e desvalorizam as áreas centrais. Com o tempo ocorre a consolidação das áreas então periféricas e o capital imobiliário volta seu interesse para os setores centrais desvalorizados e capturam estes setores para novos investimentos, lucrando com a revalorização e renovação de espaços “decadentes” do centro urbano.

Também é de Smith a ideia de “urbanismo revanchista” para se referir à generalização das políticas gentrificadoras implantadas por gestões urbanas visando deliberadamente a revalorização das áreas centrais (2). O “revanchista” refere-se ao que o autor chama de “revanche contra os pobres e perdedores” do processo de reestruturação econômica e urbana, que além de perderem seus empregos, também são obrigados a se retirarem das áreas da cidade onde residiam em função da valorização do espaço.

No século 21 o processo de gentrificação avançou muito em metrópoles mundiais como Nova York (Williamsburg, Brooklyn), Paris (Marais) e Barcelona (Ciutat Vella, El Born, Raval). Algumas prefeituras “progressistas” destas cidades (Paris, Barcelona) estão, inclusive, implantando políticas urbanas “antigentrificação” visando proteger os moradores tradicionais destas áreas. Trata-se de uma “segunda onda” do processo, após a primeira onda gentrificadora dos anos 1970 e 1980 iniciada em bairros como o Greenwich Village e o Soho, da mesma Nova York.

É o caso emblemático do bairro de Williamsburg, no Brooklyn, cujo modelo de revalorização urbana está se generalizando por Nova York e outras cidades norte-americanas (South Riverdale e Leslieville, em Toronto), o que está gerando a discussão da “economia urbana hipster” (3).

No Brasil, temos os casos do Rio de Janeiro, bairro de Santa Tereza, e São Paulo, onde o bairro de Santa Cecília vive o seu “renascimento urbano”, com diversos empreendimentos que “valorizam o trabalho autoral, a economia colaborativa, a simbiose com raízes locais e a conexão com um público que evita produtos de consumo de massa” (4). Segundo o jornal, “a chegada de novos atores” ao bairro reflete duas tendências: “a redescoberta das áreas centrais, com imóveis a preços acessíveis e boa estrutura de transporte e serviços e o maior uso de espaços públicos”.

Em Porto Alegre a gentrificação do chamado 4º Distrito (bairros Floresta, Navegantes, São Geraldo e São João), antiga área industrial, está no debate urbano da cidade, inclusive com um programa da Prefeitura baseado na renovação urbana do Poble Nou, o “distrito criativo” de Barcelona, o Projeto 22@ (5).

Mas é no bairro Bom Fim que observamos a reunião de diversas condições objetivas para o processo: proximidade do centro, infraestrutura urbana, perfil sociodemográfico, parque imobiliário, amenidades e equipamentos urbanos (o Parque Farroupilha – a “Redenção” – o mais tradicional da cidade).

Nos últimos anos, o Bom Fim, tradicional bairro da metrópole gaúcha, passa por um processo de “renascimento” urbano com novos empreendimentos voltados para um consumo seletivo e diferenciado. São o que chamamos de sinais de uma “gentrificação hipster” em Porto Alegre.

Bar no bairro Bom Fim, agosto de 2016 –  Foto Paulo Roberto Rodrigues Soares 

O Bom Fim tem história. Sofreu diversas ondas migratórias. Foi parte da “Colônia Africana”, local de moradia de escravos libertos no início do século 20. Depois vieram os espanhóis, os italianos e, finalmente, os judeus. Converteu-se no bairro judeu, o ghetto ou o shtetl (6) de Porto Alegre. Apesar de sua população não ser mais de maioria judaica, esta comunidade ainda mantém forte presença no bairro, além de permanecerem ali os seus “marcadores culturais”: clubes, associações, museu e três sinagogas (7).

O mercado imobiliário também teve suas três ondas. A primeira, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, com os edifícios de até cinco andares, “com nomes de mães judias” (8), nas suas principais ruas. Na década de 1980 a construção de edifícios de dez andares, recuados, seguindo os ditames do Plano Diretor de Porto Alegre, de 1979. E agora, a terceira onda, com edifícios de apartamentos de um dormitório, studios e lofts, adaptados para o público de casais profissionais jovens, solteiros e estudantes.

Presença judaica no bairro, agosto 2016 Foto Paulo Roberto Rodrigues Soares

O Bom Fim nos anos 1970 e 1980 concentrava, na avenida Osvaldo Aranha, a vida estudantil e noturna da cidade. A proximidade com o campus central da UFRGS e de outras faculdades concentrou bares naquela avenida. O bar Ocidente (ainda hoje em atividade) e o cine Baltimore foram marcos na cena urbana de vanguarda na cidade (9). Porém, nos anos 1990 a noite da Osvaldo entrou em decadência e a vida noturna da cidade migrou para a Cidade Baixa.

Após um período de “esquecimento” e estabilidade, nos anos 2000 o bairro tem o seu “renascimento urbano”, boa parte devido à “nova cultura urbana” de revalorização dos bairros centrais, da vida “de calçada” e do consumo diferenciado. Também tem relações com a economia cognitiva, a nova economia da cultura, o que poderíamos chamar genericamente de economia hipster.

Novo mercado imobiliário, agosto 2016 – Foto Paulo Roberto Rodrigues Soares 

Os hipsters, são uma nova tribo de jovens profissionais urbanos. Aludem à “classe criativa” de Richard Florida (10). São jovens vinculados à economia da cultura, ao capitalismo cognitivo e às atividades de inovação. Como toda “tribo” distinguem-se pelo estilo de consumo (diferenciado), pelo modo de vida (onde predomina um sentimento saudosista, que se manifesta na vestimenta) e pelos territórios que demarcam.

Nos espaços ocupados por este público florescem novos restaurantes voltadas para as experiências “sensoriais” da gastronomia, cozinha intuitiva e artesanal. Justamente, o Bom Fim atual concentra bares, cafés e restaurantes de diferentes tipos: uruguaio, espanhol (“bar de tapas”), japonês, tailandês, italiano, peruano, árabe, “hamburgueria gourmet” e padarias artesanais.

Restaurantes no Bairro Bom Fim, agosto de 2016 – Foto Paulo Roberto Rodrigues Soares 

No bairro também aparecem lojas de produtos ecológicos e orgânicos, livrarias e sebos, brechós, estúdios de tatuagem e as indefectíveis barber shops. Apartamentos são alugados por jovens empreendedores que instalam silenciosas e quase invisíveis start ups. Alguns destes negócios ocupam espaços do antigo comércio do bairro formado por mercearias, quitandas e fruteiras. Aí temos um dos perigos desta gentrificação.

O capital imobiliário renasce no bairro buscando posições em um tecido urbano consolidado e de difícil mobilidade. A valorização também se reflete no parque imobiliário tradicional, com um amplo e espontâneo movimento de renovação de fachadas dos edifícios atualmente com três ou quatro décadas de existência.

Restaurantes no Bairro Bom Fim, agosto de 2016 – Foto Paulo Roberto Rodrigues Soares 

Que a gentrificação hipster no Bom Fim não destrua o tecido social do bairro e seu comércio local. Que não afaste a sua tradicional população pela elevação do custo de vida, uma das consequências nefastas do processo de gentrificação. Que o Bom Fim se renove, mas continue sendo um espaço compartilhado de diversidade e exemplo de vida urbana democrática no coração da metrópole de Porto Alegre.

notas

1
Entre os principais trabalhos do autor destacamos: SMITH, N. Toward a theory of gentrification: a back to the city movement by capital, not people. Journal of the American Planning Association, n. 45, abr. 1979, p. 538-548; SMITH, Neil. New globalism, new urbanism: gentrification as global urban strategy. Antipode, n. 34, mar. 2002, p. 427-450.

2
SMITH, Neil. The New Urban Frontier: Gentrification and the Revanchist City. Nova York/Londres, Routledge, 1996. Ver também: SMITH, Neil. A gentrificação generalizada: de uma anomalia local à “regeneração” urbana como estratégia urbana global. In: BIDOU-ZACHARIASEN, Catherine. (ed.). De volta à cidade. Dos processos de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos.São Paulo, Annablume, 2006.

3
Ver o seguinte marcante artigo: KENDZIOR, Sarah. The peril of hipster economics. Aljazeera, Doha, Qatar, 28 maio 2014 <www.aljazeera.com/indepth/opinion/2014/05/peril-hipster-economics-2014527105521158885.html>. Versão em espanhol: KENDZIOR, Sarah. Gentrificación: los peligros de la economía urbana hípster. ArchDaily Peru, Lima, 19 nov.  2014 <www.archdaily.pe/pe/757323/gentrificacion-los-peligros-de-la-economia-urbana-hipster>. Sobre a gentrificação hipster nos bairros de South Riverdale e Leslieville em Toronto ver: BALLINGALL, Alex. Welcome to Hipsterville East. The Star, Toronto, 16 maio 2014 <https://www.thestar.com/news/gta/2014/05/16/welcome_to_hipsterville_east.html>.

4
BALAGO, Rafael; GREGORIO, Rafael. Jovens mudam a cara da Santa Cecília, que vira ‘bairro da moda’. Folha de S.Paulo, São Paulo, 04 out. 2015 <http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2015/10/1689012-santa-cecilia-ve-mudanca-de-perfil-com-novas-atracoes-e-moradores-jovens.shtml>.

5
Què es 22@Barcelona? Ajuntament de Barcelona, 2006 <www.22barcelona.com>.

6
Shtetl é o diminutivo de shtot, cidade em iídiche, portanto, uma aldeia, um burgo”. HEINEBERG, Ilana. Espaços de abertura no shtetl brasileiro de Moacyr Scliar. Uma leitura de A Guerra no Bom FimWebMosaica – Revista do Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, Porto Alegre, vol. 3, n.1, jan./jun. 2011, p. 77-86.

7
Ver: SANTOS, Maria Medianeira dos. Territorialidades judaicas no espaço urbano do Porto Alegre. Tese de doutorado. Porto Alegre, UFRGS, 2014.

8
SCLIAR, Moacyr. A guerra no Bom Fim. Porto Alegre, L&PM, 1972.

9
Ver a música “Berlim Bom Fim” de Nei Lisboa e o documentário “Filme sobre um Bom Fim” (2015, https://www.youtube.com/watch?v=l0tHr33UBEY). Uma análise acadêmica do período pode ser encontrada no livro: SILVA, Juremir Machado da. A miséria do cotidiano: energias utópicas em um território urbano moderno e pós-moderno. Porto Alegre, Artes e Ofícios, 1991

10
FLORIDA, Richard (2002). A ascensão da classe criativa. Porto Alegre, L&PM, 2011.

sobre o autor

Paulo Roberto Rodrigues Soares é geógrafo, doutor em Geografia Humana pela Universitat de Barcelona e professor do Departamento e do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFRGS e pesquisador do Observatório das Metrópoles – núcleo Porto Alegre

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